00:00:00
22 Oct

Coletivo incentiva troca de resto de óleo de cozinha por sabão e cursos de educação ambiental na periferia de SP

Cerca de 100 litros de óleo são recolhidos por mês em bairros do extremo da Zona Sul. ‘Sabão feito de óleo de cozinha usado faz parte da Cultura Popular Imaterial da Periferia’, diz Renato Rocha, fundador do Coletivo DedoVerde.

Apreciado pelos brasileiros à mesa, o óleo de cozinha se transforma em inimigo quando chega nos esgotos e rios. Segundo a Sabesp, estima-se que cada litro de óleo jogado pelo encanamento polui cerca de 20 mil litros de água. Pensando nisso, um projeto troca o resto de óleo que sobra nas panelas de frituras da população por sabão feito com o produto e programas educativos.

O Programa Óleo Vivo foi criado pelo fundador do Coletivo DedoVerde, Renato Rocha, que atua em bairros da periferia da Zona Sul de São Paulo e funciona na Casa de Cultura e Educação São Luís.

“A gente começou a entender que na periferia já existia a moeda de troca do óleo. O sabão feito de óleo de cozinha usado faz parte da Cultura Popular Imaterial da Periferia. Era um modelo de economia de troca solidária e resolvemos pesquisar ”, disse Renato em entrevista.

Entre as recompensas também estão workshops e palestras. “A gente pega o que as pessoas não iriam usar mais e, em contrapartida, oferecemos conhecimento e o sabão”, disse Renato em entrevista.

Cartaz para recolhimento do Óleo de fritura usado.  — Foto: Beatriz Magalhães/G1
Cartaz para recolhimento do Óleo de fritura usado. — Foto: Beatriz Magalhães

Em média, o projeto coleta em torno de 100 litros de óleo por mês. Em troca, o coletivo realizou palestras sobre pragas urbanas, conscientização ambiental, veganismo, Plancs (Plantas alimentícias não-convencionais), lixo, saúde pública, entre outros temas. Assim, ele defende que conseguiu implantar uma espécie de economia solidária, onde o óleo funciona como moeda social.

“Recentemente, um grupo de 40 estudantes pediu para fazer um trabalho aqui. A missão deles era conhecer projetos da região. Nós dissemos que poderíamos receber eles, mas, em troca, eles teriam que nos trazer óleo usado. Aquele seria nosso pagamento. Eles conseguiram nos dar 280 litros”, conta Renato.

Parte do óleo armazenado é utilizado para produzir sabão, a outra é vendida para indústrias que produzem biodiesel. O dinheiro é revertido em prol da própria instituição e ajuda a manter a horta urbana e estimular a produção de sabão.

Renato Rocha, fundador do coletivo DedoVerde.  — Foto: Beatriz Magalhães/G1
Renato Rocha, fundador do coletivo DedoVerde. — Foto: Beatriz Magalhães/G1

Memórias

Renato nasceu e cresceu no Jardim São Luís, por isso, o reaproveitamento do óleo de cozinha está nas memórias da infância. Ele conta que quando tinha 10 anos, levava o óleo de fritura usado para a Dona Maria, uma moradora do bairro que era conhecida por receber o material. Em troca, ela lhe dava uma pedra de sabão.

O interesse pela sustentabilidade surgiu anos depois, quando Renato teve contato com o bambu, em um curso de construção de instrumentos de percussão. A partir daí ele começou a estudar construções feitas com materiais alternativos e produtos sustentáveis, como por exemplo, telhas feitas com tubos de pasta de dente.

A vontade de unir a sustentabilidade com o cotidiano da periferia fez Renato optar pela reciclagem do óleo de cozinha. “Aqui, como as pessoas gastam muito tempo no transporte público, cerca de 1 hora e meia duas horas, quando a pessoa chega em casa ela procura fazer uma comida o mais rápido possível, na maior parte das vezes, é fritura, e aí ela não sabe o que ela faz com aquele óleo, ela vira no ralo, no ralo da pia ou no vaso”, comenta ele.

Quando começou a estudar o descarte do óleo e formas sustentáveis de reaproveitá-lo, Renato logo se lembrou da história da Dona Maria e buscou mulheres da sua comunidade que faziam o sabão em casa para trocar ou vender ou até mesmo utilizar na limpeza da casa, já que esse tipo de produto não pode ser usado para higiene pessoal.

Em sua pesquisa, ele percebeu que, apesar de precisarem manusear diretamente a Soda, produto químico corrosivo, a maioria das mulheres que fazem o sabão, não utilizavam equipamento de proteção. E cada uma possui uma receita. “Tem mulher que coloca detergente, outras usam alvejante para ficar com cheiro”, diz ele. Por isso, Renato ainda sonha em criar um curso que as auxilie.

No coletivo Dedo Verde há um grupo de mulheres responsável por fazer o sabão com óleo de fritura usado, carinhosamente apelidado de Severina, em homenagem a todas as mulheres que fazem e utilizam o produto. Com a ajuda de investimentos, elas conseguiram comprar uma batedeira, que auxilia na fabricação dos sabões, e fazer um curso de fabricação de sabonetes com óleos vegetais.

Sabão produzido pelo coletivo DedoVerde com o óleo de fritura usado.  — Foto: Beatriz Magalhães/G1
Sabão produzido pelo coletivo DedoVerde com o óleo de fritura usado. — Foto: Beatriz Magalhães

Almas do Projeto

Os olhos de dona Francisca se enchem de lágrimas quando ela olha para o sabão Alma de Francisca. O nome foi escolhido em sua homenagem e faz parte da coleção feita com óleos vegetais. Cada unidade possui o nome de uma das 3 mulheres que compõe o grupo Almas (Arranjo local das Mulheres Artesãs do Sabão), que faz parte do Coletivo Dedo Verde.

Francisca, Zilda e Nany são mulheres que vivem na comunidade do Jardim São Luís. Todas vieram do nordeste e compartilham de uma história de luta. Elas veem no sabão uma possibilidade de crescimento, independência financeira e de conseguir ajudar o meio ambiente.

“Eu acredito que quando meus bisnetos e tataranetos chegarem na minha idade ainda terá água potável. Eu tenho essa esperança. Se a gente não conseguir fazer isso agora, quando chegar lá não vai ter. A importância para mim é tirar o óleo do meio ambiente”, diz Zilda Fernandes, de 72 anos.

Para Francisca dos Santos, além de ser uma oportunidade profissional, o coletivo a estimulou a voltar a estudar. Com 56 anos, ela está aprendendo a ler e escrever, um sonho que tinha deixado na Bahia quando ainda trabalhava na roça. “Meus pais falavam que a escola não dava nada para nós, que a gente tinha que trabalhar. A gente deixava de ir para escola para trabalhar”, disse ela, que consegue pagar a passagem de ônibus para ir à escola com a venda dos sabonetes.

Além de sonhar com o crescimento da fábrica de sabão, elas querem ensinar outras mulheres da comunidade a gerar algum tipo de renda com essa alternativa.

Segundo Renato, a maioria das mulheres entrevistadas por ele sabia sobre a possibilidade de trocar ou comercializar o sabão, porém, elas não costumavam vender o óleo, “elas não sabem que podem vender o óleo e ele tem um valor de mercado. A gente poderia potencializar esse ponto de coleta de óleo. Seriam duas rendas, uma vendendo sabão e outra vendendo óleo”, diz ele.

Dona Zilda e Dona Francisca consideradas as guardiãs da Horta Comunitária.  — Foto: Beatriz Magalhães/G1
Dona Zilda e Dona Francisca consideradas as guardiãs da Horta Comunitária. — Foto: Beatriz Magalhães/G1

Horta Periférica

Além da preocupação com o óleo, o coletivo Dedo Verde também cuida de uma horta onde são cultivadas hortaliças convencionais, como por exemplo, alface e couve-flor, e não-convencionais, as chamadas Pancs. Além disso, também são produzidas ervas aromáticas e medicinais.

Tudo é feito de forma orgânica e os produtos são vendidos no terceiro do domingo do mês na conhecida Perifeirinha, realizada na Casa de Cultura e Educação São Luís. O objetivo é incentivar os moradores da região a comerem alimentos sem agrotóxicos e incentivá-los a conhecer tipos diferentes de ervas e vegetais.

“Produzindo a gente começou a entender que as pessoas só estão acostumadas a comer alface, tomate e cebola, foi quando a gente começou a ter a ideia de trazer esses alimentos diferentes para poder comercializar aqui”, conta Renato.

You may be interested

Consultor que estruturou o primeiro fundo imobiliário do Brasil aborda o potencial do setor
Brasil
Brasil

Consultor que estruturou o primeiro fundo imobiliário do Brasil aborda o potencial do setor

Fabio Alencar - 22/10/2019

SÃO PAULO – Nesta segunda-feira (21), Ricardo Reis, professor do InfoMoney, conversou com Sérgio Belleza Filho, consultor de investimentos responsável pelo site Fundo Imobiliário, sobre a trajetória…

Instituto Nacional de Estudos do Repouso amplia em 21% número de inscritos em treinamentos online para vendedores de colchões no Brasil
Brasil
Brasil

Instituto Nacional de Estudos do Repouso amplia em 21% número de inscritos em treinamentos online para vendedores de colchões no Brasil

Fabio Alencar - 22/10/2019

O Instituto Nacional de Estudos do Repouso (INER) registrou recorde de treinamentos oferecidos para profissionais do setor de comercialização de colchões entre janeiro e agosto de 2019.…

Inter acerta com Zé Ricardo para comandar time até o fim de 2019, afirma site
Brasil
Brasil

Inter acerta com Zé Ricardo para comandar time até o fim de 2019, afirma site

Fabio Alencar - 22/10/2019

O Bahia vem frustrando o seu torcedor dentro de casa nos últimos jogos pelo Campeonato Brasileiro. Foi assim contra o Athletico, São Paulo e Ceará na noite…

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Most from this category